Conto – 6º Epis.

Os Mensageiros

A DÚVIDA

A Dúvida, de Sara Loureiro

“Olá, Lupe!”, cumprimenta. “A polícia federal esteve lá em casa hoje de manhã”, informa Poncho. “Sei que foste falar do Pepe”, continua. Lupe permanece em silêncio. “Olha, não foi boa ideia teres feito isso”, afirma Poncho, sempre com o mesmo tom de voz arrastado, talvez mesmo cansado. “O México está cheio de histórias de desaparecimentos como a nossa, como a de Pepe, por razões nem sempre claras, por razões que nem sempre interessa explicar, por ligações a certos grupos…”, lembra. “É demasiado perigoso para ti, para a tua segurança, para a tua vida”, interrompe-se. “Esta gente é implacável!”, reforça. “Eles vão saber o que tu fizeste”, afirma Poncho sem indício de dúvida. “Esta gente tem sede de vingança!”, continua.

“Que gente, Poncho?”, reage Lupe. “Explica-me o que se passa. Não uses meias palavras!”, exige.

“Ora, não se está mesmo a ver?”, agora é a vez dele perguntar. “Andas de olhos fechados, rapariga?!”, pergunta incrédulo. “Os rumores e as insinuações andam por aí por todo o lado. Andas cega e surda? Parva não me parece que sejas…”, diz com uma certa agressividade. Poncho desatara a língua. Ela não queria acreditar! Estaria Pepe envolvido em… A cabeça relampejava. “Virgem de Guadalupe, Santa Mãe!”, repete Lupe para si. “Não pode ser verdade!”, continua. “Eu já teria percebido, se assim fosse”, não se cansa de pensar. Poncho dá meia volta. Diz qualquer coisa que ela já não percebe. As pernas tremem-lhe. Sobre ela abate-se uma tempestade que a imobiliza. “Como é que nunca me apercebi de nada?”, pergunta-se. Lupe encosta-se a uma parede, em busca de apoio. Algumas das pessoas que passam viram-se para olhá-la, mas ela nem dá por isso. Senta-se no degrau de acesso a uma casa, visivelmente derrotada. Apoia a cabeça nos joelhos. O relógio está infatigável.

Sem saber como, Lupe regressa a casa noite dentro. Deita-se sobre a cama e adormece. Dorme a noite inteira, sem interrupções. Acorda já perto da hora de almoço. Permanece deitada, sem vontade de se levantar. Precisa pensar. Na sua cabeça vai-se equacionando um cenário até então ignorado. Junta peças, estabelece ligações, faz deduções… enfim, tenta encontrar caminhos, fazer qualquer coisa. No meio de tudo isto, vem-lhe à cabeça a imagem dos Anjos Mensageiros. Ouvira dizer, na altura, que eram da igreja  Canto de los Salmos. Era lá que queria ir. Queria falar com aquela gente. Ouvir as suas razões. Conhecer as suas lutas. Talvez pedir ajuda ou ajudar, quem sabe. (continua)

Por: Sara Loureiro

Sobre Salou

Sara Loureiro (SALOU) segue um caminho que reconhece que é o Seu: o da aprendizagem e busca constantes.
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