Conto – 5º Epis.

Os Mensageiros

Nossa Senhora de Guadalupe

“Senhorita, já passei os olhos pelo processo que o meu colega abriu, relativamente ao desaparecimento do seu noivo. Preciso da identificação dele e de alguns outros elementos. Faça o favor de se sentar.”

Lupe tentou arrastar a cadeira, que parecia colada ao chão. Estava literalmente exaurida. Mal ouvia a voz do polícia, que ia falando e perguntando, falando e perguntando, falando e…

“Senhorita, sente-se bem?”, inquiriu o polícia ao constatar que ela não respondia a nada do que ele perguntava.

“Desculpe. Isto já passa. Deve ser por estar nervosa.”

“Compreendo. Vamos então completar os dados relativos ao seu noivo”, prosseguiu o polícia. “Diga-me o nome completo, a idade, a profissão, a residência,  com quem vivia, o nome de alguns dos amigos mais próximos e, se possível, a morada de algum deles ou outro contacto.”

Lupe lá foi respondendo e dando as informações que lhe eram solicitadas. Pepe, 38 anos, vivia num pequeno bairro degradado da periferia de Juárez, com o irmão Poncho, pouco mais velho, na casa que fora dos pais, falecidos há já uns anos. Lupe e Pepe conheceram-se há 4 ou 5 anos atrás. Ele, vaqueiro forte, destemido, pele achocolatada, dera-lhe no olho numa feira, num dos populares rodeos mexicanos, as tradicionais Charrerías, com os ginetes a mostrar as habilidades. Pepe vibrava com a montaria dos touros e a perícia dos montadores. Lupe ria-se, mas não gostava quando alguém saía da brincadeira de braço pendurado. Há dois anos, graças à ajuda de um amigo, Pepe mudara de vida.  Agora trabalhava no transporte de mercadorias. Trabalho mais limpo, mais perto de casa. Que sabia ela dos amigos de Pepe? Pouco. “Não te metas com aquela gente!”, avisava Pepe. “São outro mundo. Não quero que dês confiança”, costumava dizer. Héctor Padilla também andava no transporte de mercadorias e era com ele que Pepe estava mais frequentemente. Trabalhavam ambos na transportadora Super Express Fernández. Era quanto sabia. Bastava-lhe.

“Muito bem, senhorita”, diz o polícia sem desviar os olhos do que  estava a escrever. “Chegou a falar com alguém antes de aqui vir?”, pergunta.

“Sim, falei com Poncho, o irmão de Pepe”, refere Lupe.

“Sim, e então?…”, quer saber o agente.

Lupe fala da conversa que ambos tiveram e do vazio com que regressou a casa, nessa tarde povoada de dúvida e opacidade.

“Muito bem, senhorita.”, repete o agente. “Iremos proceder em conformidade com o previsto para estas situações”, explica. “Procure manter-se calma e reservada. Não adianta fazer nada por iniciativa própria. Já fez o que tinha a fazer. Contactá-la-emos se necessitarmos de mais informações”, diz estendendo a mão, em sinal de fim de conversa.

Lupe agradece e sai. Não consegue pensar grande coisa. Sente-se aliviada. “Fiz bem em ter vindo”, diz para si. “Devia falar com Poncho! Devia dizer-lhe que participei o desaparecimento de Pepe à polícia federal”, pensa. Tem que pensar melhor. Tem que esfriar a cabeça. Afinal Poncho é irmão. Devia preocupar-se mais com a situação… Lupe vai ruminando. Sem dar por isso, dirige-se para casa. É lá que irá permanecer nos dois dias seguintes. Sábado, 12 de Dezembro. Vazio. Domingo, 13 de Dezembro. Vazio. Segunda-feira, 14 de Dezembro. Decide que vai trabalhar. Não dá grandes explicações quando chega. Pouco tem falado sobre o sucedido, mas já todos perceberam que há ali coisa. Não tem cabeça para conversas. Faz tudo maquinalmente. Parece que anda sob anestesia. Decidira não ir ter com Poncho. Logo se vê, pensava ela. Na quarta-feira ao fim do dia, quando sai da pequena joalharia, dá de caras com Poncho, numa rua não muito distante. Ele estava à espera dela. Ela é que não! (continua)

Por: Sara Loureiro

Sobre Salou

Sara Loureiro (SALOU) segue um caminho que reconhece que é o Seu: o da aprendizagem e busca constantes.
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