Conto – 4º Epis.

Os Mensageiros

Trinity, de Sara Loureiro

“Bom dia. Em que posso ajudá-la, senhorita?”, perguntou o polícia da receção, com um sorriso elástico.

“Olá. O meu noivo Pepe Gómez deixou de dar notícias”, diz devagar, sentindo a voz  esfumar-se. “Não sei nada dele. Supostamente o nosso casamento seria amanhã”, acrescenta, evidenciando uma certa humilhação. “Já não sei o que fazer. Procurei junto dos amigos, dos conhecidos e do irmão, visto que já não tem mais família chegada aqui em Juárez. Ninguém sabe. Ninguém o viu.”

“Como se chama, senhorita?”, inquiriu o polícia.

“Guadalupe Carillo”.

O polícia olha-a apressadamente e volta ao papel que tinha sobre a secretária. “Muito bem, senhorita Guadalupe. Com que então o casamento era para ser amanhã, dia da Virgem de Guadalupe. Vai ver que ele se arrependeu! Mais vale antes do que depois, concorda comigo?”, pergunta o polícia.

“Não vim cá para lhe pedir opiniões desse tipo”, diz com voz acutilante. “Vim em busca de ajuda e de profissionalismo”, continua em reação à graçola.

“Tem razão!”, reconhece o polícia. “Peço desculpa. Era só para atenuar a tensão”, justifica-se. “Quando esteve com o seu noivo pela última vez?”, inquiriu.

“No fim de semana passado”, responde com voz áspera.

“Muito bem. E onde estiveram?”, quis saber.

“Em minha casa, aqui em Juárez. Era lá que íamos ficar a viver”, acrescenta sem que o polícia lhe tivesse perguntado.

“Muito bem”, continua ele. “Estranhou alguma coisa, algum comportamento diferente? Alguma conversa diferente do normal? Alguma coisa que lhe pareça importante referir?”

Lupe pensou por breves instantes. Pepe era muito metido consigo próprio. Nunca se percebia o que lhe ia lá no íntimo. Não se abria. “Não. Pepe era de poucas falas. Mas tratava-me bem… No domingo até me ofereceu uma medalha da Nossa Senhora de Guadalupe para me proteger e dar sorte. Disse que eu precisava…”

“E achou isso natural?”, indagou o polícia.

“Não dei grande importância”, disse com naturalidade.

“Mas pensando melhor agora, o que lhe parece?”, reforçou o polícia.

“Sim, pode ter qualquer significado que eu na altura não percebi”, concordou.

“Pois é! Todos os detalhes são importantes. Aguarde um momento que eu vou ver se a posso encaminhar para a pessoa que toma conta desse tipo de ocorrências.”

Lupe ficou em silêncio. A cabeça dava voltas, o pensamento contorcia-se, dolorido do esforço dos últimos dias. Aquilo podia ter qualquer significado mais profundo, pensava ela. Na altura, achou que a oferta da medalha tinha que ver com a proximidade do casamento. Ele quisera oferecer-lhe uma lembrança. E ela gostara! Ele pedira-lhe que fechasse os olhos e estendesse a mão direita. Ela assim fez. Ele colocara a medalha da Virgem sobre a sua mão, depois fechou-a e apertou-a no meio das dele. Quando abriu os olhos, ele tinha o rosto muito próximo do dela. Foi então que lhe disse, com voz pesada “É a tua santa! Ela vai proteger-te e dar-te sorte, porque tu mereces!”

 “Senhorita, acompanhe-me, por aqui, por aqui, por favor”, dizia o polícia que, entretanto, estava de volta, apontando para um gabinete no fim do corredor. “O meu colega falará consigo. Boa sorte.”

Lupe não disse nada. Dirigiu-se para o gabinete, com a cabeça e as pernas dormentes. Ela devia ter percebido que aquelas palavras de Pepe tinham outro significado, repetia para si, culpando-se. Claro que sim! (continua)

Por: Sara Loureiro

Sobre Salou

Sara Loureiro (SALOU) segue um caminho que reconhece que é o Seu: o da aprendizagem e busca constantes.
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