Conto – 3º Epis.

Os Mensageiros

Pegasus, de Sara Loureiro

Pegasus, de Sara Loureiro

Nem todos os amigos de Pepe lhe pareciam pessoas agradáveis, interessantes, recomendáveis. Não era de agora. Era coisa já antiga. Frequentemente, quando Pepe estava com alguns deles e queria conversar, fazia-lhe sinal para que ela se afastasse. Ela fazia-lhe a vontade. Eles falavam de coisas que ela não entendia. Ela entendia de prata! Lupe trabalhava desde os 15 anos numa pequena joalharia artesanal de Juaréz, vocacionada para a venda de artigos em prata, ou não fosse o México o seu principal produtor mundial. Conhecia o metal precioso e sabia falar da sua pureza. Uma pureza que ela respeitava. Conhecia as ligas de prata com maior durabilidade e qualidade. Prata 950 e prata 925. As melhores. 95% ou 92,5% de prata legítima e a restante percentagem de outros metais, normalmente cobre. Sabia de consertos, ajustes e polimentos. Orgulhava-se deste conhecimento, adquirido ao longo dos anos, pelo muito que fora ouvindo e repetindo. Bastava-lhe isto. Para quê querer mais? Na pequena joalharia, eram as medalhas religiosas em formato oval a principal fonte de rendimento. Medalhas da Virgem de Guadalupe em prata de lei, algumas cravejadas de safiras, de esmeraldas, de rubis, outras folheadas a ouro ou até mesmo em ouro. Tudo dependia do bolso de quem comprava. “Virgem padroeira, Mãe das Américas, escuta com piedade nosso pranto, nossas tristezas, cura nossas penas, nossas misérias e dores.” Tantas vezes ouvira esta oração proferida em momentos de sofrimento por mães, viúvas, filhas, filhos e familiares de vítimas da violência, do narcotráfico, do ódio entre grupos organizados, entre cartéis da droga! Agora era ela que repetia incessantemente esta prece.

Sexta-feira, 11 de Dezembro. De Pepe nem o mais leve traço. Lupe levanta-se cedo. As noites são passadas em claro. Primeiro, por causa dos preparativos para o casamento; depois, por causas que ditaram o fim de um casamento que não chegara a sê-lo. O seu casamento. O seu dia. A sua ilusão de felicidade. Tudo se extinguira. Estava decidida. Iria à polícia federal. Iria falar do desaparecimento de Pepe, da inexistência de notícias, do silêncio, da preocupação, do medo. É preciso fazer alguma coisa. Às nove e pouco já está na rua. Passada larga, decidida, ritmada. Ali há coisa, pensa ela. Tem que haver uma explicação  e se não há é preciso encontrá-la. A polícia federal existe para isso. Existe para servir e proteger a comunidade, prevenir a violência, o sequestro e a extorsão, os abusos de poder e a corrupção, o crime organizado. A bandeira de Felipe Calderón, o presidente que se lançara numa guerra contra o crime organizado, com a participação de milhares de soldados e polícias. Uma luta que parecia não resultar. Que aumentara os níveis de violência. Que vitimara milhares de pessoas, entre delinquentes, inocentes e forças de segurança. Que estava repleta de casos de abuso cometidos por polícias e militares. Que prometia um futuro de oportunidades, liberdade e igualdade. Um futuro de segurança que tardava em fazer-se sentir. Apesar de tudo, Lupe decidira dirigir-se à polícia, contrariando outras opiniões. (continua)

Por: Sara Loureiro

Sobre Salou

Sara Loureiro (SALOU) segue um caminho que reconhece que é o Seu: o da aprendizagem e busca constantes.
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