Publicação de um conto por episódios – 1º Epis.

Os Mensageiros

Edvard Munch’s The Scream

O dia despontara com uma claridade parda e estranhamente sufocante. Na boca, o sabor amargo da noite empalidecera, dando lugar a uma tristeza sódica e a um conjunto de interrogações avassaladoras, que proliferavam impiedosamente, à medida que as horas se desgastavam. Há cinco dias que não havia notícias. De Pepe, nem rasto. Nada de nada. Percorrera, nos dois dias anteriores, ruas inteiras de Juárez, aquelas que sabia que Pepe frequentava, os locais onde achava possível encontrar alguns dos seus companheiros e a ajuda de que tanto necessitava. Procurara os tais amigos, conhecidos, colegas, uns e outros. Nada. Ninguém vira ou ouvira fosse o que fosse. Ninguém sabia. Ou antes, ninguém parecia querer saber. Ninguém dera conta. De ninguém ouvira uma palavra que a norteasse, que a ajudasse a ir num qualquer sentido. Estranhou. Deu-se conta de um certo distanciamento por parte dos conhecidos com quem estivera. Não era desinteresse, não. Era, antes, uma inquietação latente, bem dissimulada. Estranhou, naturalmente…

Na tarde anterior, ao percorrer, de novo, as ruas de Ciudad Juárez, Lupe sentira o medo apoderar-se de si pela primeira vez. Era um medo estranho que lhe zunia na cabeça e lhe toldava os sentidos. A zoada instalara-se, acabando por se tornar de tal modo insuportável que, por diversas vezes, tivera que sacudir a cabeça, na tentativa de dissuadir o que parecia ser um ataque concertado de mosquitos ou outro que tal. Este estado ébrio gerara, em seu entender, aquilo que acreditava ser uma alucinação. Ao início da noite, numa das praças que cruzava, Lupe dera de caras com os vultos de uns anjos, longas vestes brancas e largas asas de penas. Que cena! Anjos não são uma visão comum em Ciudad Juárez, a mais violenta da fronteira mexicana. Sentiu os joelhos cederem e as pernas vacilarem. Parou. Um dos anjos erguia um enorme cartaz onde se lia “Arrependam-se, assassinos.” Um outro dizia “Amor por Juárez”. Lupe não percebeu. Parou e olhou em redor. Havia muita gente paralisada como ela. Semblantes perplexos, circunspetos, desconcertados, inquisitivos. (continua)

                                                                                                                       Por: Sara Loureiro

Sobre Salou

Sara Loureiro (SALOU) segue um caminho que reconhece que é o Seu: o da aprendizagem e busca constantes.
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