Rotina – muito, pouco ou nada?

Sio Montera, "A SOULLESS ROUTINE" - mista em papel

Desimaginem-se os que acham que as rotinas  são más companheiras!  Tida normalmente como uma ameaça à criatividade, a rotina transporta  consigo o estigma da monotonia, do desânimo, da estagnação, do vazio… Diz-se, não raras vezes,  que a rotina desgasta, corrói, mina, desvanece o ímpeto, dissipa a paixão. Será mesmo assim? Tenho algumas dúvidas!

Quando o dia-a-dia  se transforma num improviso, sem regularidades, sem ordem, sem previsibilidades, sem estrutura, sem rotinas, tudo se desacerta, deixando prever a iminência do caos. Por isso,  há que fazer jus à rotina, pela importância fundamental que esta assume no nosso desenvolvimento, na nossa construção  enquanto indivíduos, na construção da pessoa humana, na promoção do nosso equilíbrio bio-psico-social, na estruturação da vida, nas aprendizagens…

Afinal, são as rotinas que propiciam a estabilidade, a tranquilidade e o espaço mental necessários para nos dedicarmos a “outras aventuras”, àquilo que nos projecta para além do quotidiano, do aqui e do agora e que requer energias redobradas, só disponíveis se as rotinas existirem e funcionarem normalmente.

Contudo, importa saber do que falamos, quando falamos de rotina. As rotinas não servem,
não podem servir, para nos acorrentar, para nos cristalizar, para nos empobrecer. Servem, antes, para as usarmos como instrumentos facilitadores das actividades básicas do dia-a-dia, sem termos que planear tudo ao milímetro, todos os dias. Há coisas que pré-definimos e que habitualmente fazemos assim sem termos que pensar muito. Isto poupa-nos tempo e energia para as outras coisas, as “outras aventuras” que nos tornam seres singulares, que nos distinguem do outro e dos outros.

Há que ressalvar um aspecto: não é qualquer rotina que serve! As rotinas que construímos têm que ser produtivas e saudáveis. Esta é a verdadeira questão! Se construirmos rotinas que em nada contribuem para um ambiente estruturado, promovendo, pelo contrário, a desordem e a instabilidade, então há que rever esses padrões de comportamento, criando rotinas ajustadas, facilitadoras e verdadeiramente produtivas. Mais, as rotinas só são produtivas se nos ajudarem a progredir e não a estagnar, se nos libertarem de preocupações dispensáveis, se concorrerem para encurtar o caminho rumo aos nossos objectivos e à nossa realização pessoal.

Eu preciso de rotinas! Sem elas perco-me, demoro-me, desacerto o meu relógio biológico, tenho mais dificuldade em resolver problemas e superar eventuais crises, em encontrar caminhos, em fazer opções. As rotinas cristalizadas e cristalizadoras assustam-me, é certo. Por isso, evito-as. Sou criteriosa na sua construção, por forma a que elas não me esgotem e eu não  me esgote nelas; por isso, quando me faltam, fico um tanto perdida, desestruturada, a ansiar pelo regresso à normalidade.

Desimaginem-se os que acham que as rotinas são más companheiras! Provavelmente as rotinas que construíram têm que ser, isso sim, repensadas, reavaliadas e dar lugar a outras, mais produtivas e necessariamente libertadoras. As rotinas servem para isso mesmo.

Sobre Salou

Sara Loureiro (SALOU) segue um caminho que reconhece que é o Seu: o da aprendizagem e busca constantes.
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6 respostas a Rotina – muito, pouco ou nada?

  1. Virgínia diz:

    Tenho algo conciso, mas sentido, a acrescentar.
    Eu acho que aceitar ou não as rotinas é muito dependente do caracter e da personalidade do ser. Não esquecer que há pessoas marcadas por uma certa instabilidade psíquica e que são muito afectadas pela rotina, precisam de mudar. Quando eu digo mudar não refiro a citada aventura, o sair esporádico da repetição, mas sim criar um bio-ritmo conforme sentem necessidade. Pessoas como eu sofrem com os mesmos horários, com tabelas organizativas previamente estabelecidas, e regem-se mais por aceitar o que lhes sabe bem, mesmo sem olhar ao relógio, continuando a servir-se de meios de apoio registados num papel ( a hora de ir à marcação p. e.) ou mesmo num plano que fazem ao adormecer para algumas tarefas no próximo dia.
    São modos de ver a rotina e a disciplina de vida. Mesmo odiando a rotina considero-me organizada e sou, sem dúvida, disciplinada. Sei que isto não é muito diferente do que referes mas acho que aponta para um ‘modus vivendi’ diverso. Abraço Virgínia

    • Salou diz:

      Bem-vinda! Obg por expressares a tua opinião, o teu sentir. Ainda a propósito da rotina, da forma como a construímos e lidamos com ela, gostaria só de acrescentar que cada um de nós é agente da sua própria rotina, necessariamente diferente da dos outros. O grande desafio, creio eu, é nós sermos capazes de recriar e/ou alterar a rotina em que fomos laborando e caindo ao longo de anos. Isso às vezes aprisiona-nos. A nossa vida não tem que ser condicionada pela rotina. O ser humano tem essa capacidade de fazer as suas próprias escolhas, sem determinismos, e estas têm que ser para nos beneficiar.

      Ao falares da forma como as rotinas te afectam, da forma como horários e tabelas organizativas mexem negativamente contigo, sinto vontade de te lançar um desafio, até porque nos conhecemos bem: ousa alterar as tuas rotinas, viver o teu quotidiano de outra forma. Ninguém fará isso por ti! És tu quem tem que assumir essa responsabilidade. Parece-me que essa é que é a questão! Desafia-te a ti própria! Dá a ti própria essa oportunidade: a oportunidade de operar mudanças na tua vida! As rotinas só podem ser quebradas quando existem, por isso, quebra essas rotinas que te acorrentam. O problema é que, às vezes, não sabemos o que fazer para além delas. Pensa nisto! Recordo que esta é, apenas, a minha modesta opinião e vale o que vale. Abr amigo!

      Salou

  2. DAlmeida diz:

    A este elogio da rotina, prática constante e remadora versus marasmo anti-progresso, sugiro a mais importante rotina de todas as saudáveis rotinas – a ROTINA DOS AFECTOS, que uma vez quebrada ou esquecida nos transforma em pior que coisa nenhuma… lixo, espectro.

    • Salou diz:

      É verdade DAlmeida! É pela rotina dos afectos que construímos laços vinculativos e como estes são importantes na nossa vida! Estou a lembrar-me da raposa e da rosa do Principezinho de Saint-Exupéry. Só se conhecem as coisas que se cativam. Foi o tempo que perdemos com “aquela” rosa que a tornou diferente das outras. Aparentemente (mas só aparentemente!) ela é igual a tantas outras, isto porque o essencial é invisível para os olhos. É por “essa” rosa que nos responsabilizamos, porque fizemos dela nossa amiga, porque a cativámos e nos cativou, e agora é única no mundo. Os afectos não são descartáveis… mas são frequentemente mal tratados. Também neste caso importa recuperar a boa reputação de uma “rotina de afectos” e estamos a referir-nos ao dar e receber, ao partilhar, ao respeitar o outro na sua singularidade, ao cativar e ser cativado. Uma rotina de afectos saudável permite cultivar o optimismo e a segurança.
      Abr. Salou

      • DAlmeida diz:

        Foi, precisamente, dessa raposa que me lembrei antes de registar o meu comentário:-). Tenho-a regularmente presente ao tentar gerir os meus afectos. Ela ensina o mais importante: a responsabilidade. A rotina faz parte dessa responsabilidade e onde uma termina a outra começa, sem que a segunda acabe na primeira. Eis a parte onde mais falhamos.

  3. DAlmeida diz:

    I have nominated you for the “Liebster Blog” award. For more information on this, please refer to my latest post on the same subject. Congratulations and Best Wishes.
    Diva Almeida
    http://divalmeida.wordpress.com/2011/11/21/the-liebster-blog-award-crypt-nominations/

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