Passagem por Genève…

(arquivo SL)

A cadeira impressiona, de facto! Refiro-me à cadeira amputada de Genève, a denominada “Broken Chair”, estratégica e ostensivamente posicionada em frente ao Palácio das Nações Unidas, como que para sacudir as consciências e apelar à união e à luta, quando em causa estão atrocidades reiteradamente cometidas pelo Homem contra o próprio Homem.

A magnitude desta cadeira (5,5 toneladas de madeira e 12 metros de altura), da autoria do artista suíço Daniel Berset e construída por Louis Genève, provem, não só, da sua envergadura, mas, sobretudo, da mensagem que ela comporta: em causa está uma cadeira com três pernas e uma quarta estilhaçada, mutilada, dilacerada, assim concebida para lembrar o drama dos vitimados pelas minas em África e apelar à proibição de minas anti-pessoais e bombas de fragmentação. Eis, uma vez mais, a arte como veículo de denúncia, de protesto, como grito implícito e explícito de alerta perante a irracionalidade, a bestialidade do Homem, enquanto predador de si próprio.

Ninguém fica indiferente ao passar na Praça das Nações onde a “Broken Chair”, virada para o Palácio das Nações Unidas, parece continuar a aguardar, incansável, pelo bom senso do ser humano, que tarda em chegar. Quando em Agosto de 1997 marcou presença, pela primeira vez, naquela praça,  terá sido para ficar por três meses, até à assinatura do tratado de Ottawa, em Dezembro de 1997. No entanto, a sua presença foi-se tornando imperiosa, porque a luta que representava estava longe do fim desejado. Por isso, foi ficando… e ali irá permanecer. O grito que cala em si ecoa em cada um dos que a observam, dos muitos turistas e visitantes que dela captam imagens, procurando o melhor ângulo. Impressiona-nos o apelo que ali se faz sentir pela liberdade, pela justiça, pela paz, pela tomada de consciência, ainda que esse apelo possa ser mais ou menos impactante, dependendo das “armas” que quem se manifesta tem ao seu dispor: palavras, cartazes, bandeiras…ou uma cadeira estropiada.  Damos connosco a olhar em redor; no corpo, um arrepio. Reparamos que diariamente um grupo de homens monta e desmonta uma tenda na praça, ostentando, numa faixa, o seu silencioso, mas marcante grito de protesto: Free Kashmir! Não querem deixar esquecer os 20 anos que passaram sobre a violação das mulheres de Kunan Poshpora (23 Fevereiro, 1991) por tropas indianas. Há marcas que são indeléveis! Outros virão, certamente, nos dias e nas semanas que se seguem, portadores de outras mensagens, carregando outros protestos, evidenciando outras sensibilidades, na expectativa de se fazerem ouvir, ou antes, escutar.

É cada vez mais difícil ficar indiferente perante as manifestações de protesto que grassam por todo o mundo, assumindo proporções de avalanche, imparáveis, abrindo brechas nas consciências, nos regimes, nas relações entre países, entre povos, nas diplomacias altamente trabalhadas e abrilhantadas.  O caminho é tortuoso, mas as fileiras dos dispostos a percorrê-lo engrossam todos os dias. Os protestos são marcados de muitas maneiras diferentes, porque diferentes são as sensibilidades, as culturas, as expressões, as causas, as lutas, as possibilidades de agir. Porém, uma coisa é comum a todos eles: a necessidade de dizer basta, de acordar os anestesiados, de encontrar novos rumos, de acreditar.

Comecei por falar da cadeira e onde já vou… Coincidentemente (ou talvez não) voltarei a falar da cadeira, não da “Broken Chair”, mas de um outro projecto em que a cadeira, simbolicamente falando, será protagonista por outras razões. Por ora, fiquemos por aqui!

Sobre Salou

Sara Loureiro (SALOU) segue um caminho que reconhece que é o Seu: o da aprendizagem e busca constantes.
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