de profundis

de profundis, colectiva de arte e ciência

portinhoVisitar o Portinho da Arrábida nesta época do ano é, por si só, um deslumbre. Ir ao Portinho e visitar a Fortaleza de Sta Maria da Arrábida, onde estará patente, até 14 de Dezembro de 2013, a exposição colectiva de arte e ciência, e representados 23 artistas, com trabalhos que vão da escrita à escultura, numa simbiose surpreendente com a colecção histórica e expositiva do naturalista setubalense Luís Gonzaga doNascimento é uma oportunidade imperdível… Assim, disponha-se a ir ao Museu Oceanográfico Luiz Saldanha do Portinho da Arrábida e visite de profundis colectiva de arte e ciência.

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Ciclo de poemas: TANTA MARÉ, TÃO POUCA MARINHAGEM (III)

III

QUESTIONAMENTO

 

Era uma vez talvez um país de novo

feito de pernas e de braços

de mãos com dedos ágeis a dedilharem cordas

extraindo sons de instrumentos desafinados

feito de gente que diz não à sua sorte

feito de gente que não quer a sua morte

feito de gente naturalmente forte.

dúvidas? tenho-as tantas!

vou conseguir dobrar mais aquela esquina?

vou conseguir vislumbrar outra saída?

busco em mim respostas e esbarro nas perguntas

alguém que me ouça?

alguém que me responda?

ao longe a maré

Se por mais tempo a mocidade esvai-se

talvez até não nasçam mais crianças

mortos ou ausentes os prenhes de esperança

nem tempo nem corpo nem forma de amar

dúvida, dúvidas…tantas

alguém pode esclarecer? já não sei nada

até as estações do ano mudam sem se perceber

estamos no verão? mas os figos nas figueiras já pararam de medrar…

quem quer saber se a fruta é nossa ou vem de fora?

Volto-me para um lado para o outro

revolto-me e revolvo-me

tanta maré

maré e silêncio

onde está a tua gente?

que é feito da marinhagem de outros tempos?

este silêncio desnorteia-me

faz-me dor de cabeça, amedronta-me

há que gritar! há que lutar!

era uma vez um país de marinheiros

alguém me ouve?

talvez a Catrineta por aí a navegar

by: Sara Loureiro

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Ciclo de poemas: TANTA MARÉ, TÃO POUCA MARINHAGEM (II)

II

RECORTES

Casas-cadáver fedem a solidão

homens e mulheres de meia-idade tocam-se

querendo saber se ainda estão vivos

os velhos respiram a medo, devagar

não se pode gastar muito, dizem

os jovens amam-se

em camas de rua de becos sem saída

em vãos de escada de prédios sem habitantes

nos vestíbulos de fábricas desactivadas

nos adros das igrejas sem fiéis

nas ruas de um país sem futuro,

amam-se com o que têm no peito e no corpo desnudo

as crianças acoitam-se e aquietam-se submissas

não há sinais de estranheza

nem prantos

nem gritos

Outra vez a fome enfileirada

a barriga inchada de coisa nenhuma

os olhos vazios de um vazio atroz

os pobres da sopa

a gente que poupa

os bancos da fome

dos homens sem nome

uma ideia que vence

um país que agradece

mas há os mal agradecidos

os que querem mais que uma sopa

os que não se contentam em apaziguar as entranhas enfraquecidas

os que querem ser astronautas, marinheiros ou professores

num país que não se alimenta nem serve de alimento

tanta maré, tão pouca marinhagem

É a maré negra de um país não possível

o lucro fácil da toxicidade

a inanidade dos esforços

o desespero de alguém que em perda se perdeu

baniu-se o talvez sim

sonha-se pouco, sonha-se nada

multiplicam-se as ondas

a maré em cólera rebenta os cabos

derruba os mastros

não há leme que governe

só maré

maré sem marinhagem

em deriva a embarcação prossegue

                                                                                          (continua)

by: Sara Loureiro

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Ciclo de poemas: TANTA MARÉ, TÃO POUCA MARINHAGEM (I)

I

PERFIL FUGIDIO

Um país não possível não emite sons audíveis

comunica com os morcegos

põe de alerta os cães

não vê nem se deixa ver

torna-se opaco e pardacento

não se alimenta nem serve de alimento

aniquila-se, tritura-se, dissipa-se.

É a maré negra de um país não possível

feito de ondas fétidas

errante  num vaivém nauseabundo

sem faina, sem ecos de marinhagem,

só maré

Abafada pela surdina

a mocidade esvai-se, debilita-se,

sujeita-se à demolição

e extingue-se no silêncio

nos braços o sol, na boca o sal.

Nem faina nem marinhagem. As águas minguaram

por um tempo por uns tempos tanto tempo

aos novos enviesaram-lhes o futuro

queriam ser astronautas ou marinheiros ou professores

e o país não deixou

queriam ser qualquer coisa

e o país não deixou

não sobrou sonho ou sonhador

Pereceram os meninos de suas mães!

Enlutadas as famílias desagregam-se

é a maré negra de um país não possível

pousados na prateleira

arquivam-se os sonhos breves

os filhos estão de partida

outros quedam-se e questionam-se

país impossível… de que serve?

Ai, as malhas que a vida tece!

E tece teias, tece esquinas derrapantes,

suga tudo, suga todos

lança dardos, lança fardos

país, país…

                                        (continua)

                                        by: Sara Loureiro

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Cinco palavras, cinco pedras

Antigamente escrevia poemas compridos

Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema

São elas: desalento prostração desolação desânimo

E ainda me esquecia de uma: desistência

Ocorreu-me antes do fecho do poema

E em parte resume o que penso da vida

Passado o dia oito de cada mês

Destas cinco palavras me rodeio

E delas vem a música precisa

Para continuar. Recapitulo:

desistência desalento prostração desolação desânimo

Antigamente quando os deuses eram grandes

Eu sempre dispunha de muitos versos

Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas

                                                                            Ruy Belo

                         Pode ouvir AQUI

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