Um poema que possas abraçar

Palavras que abraçam

Palavras que abraçam

Queres

Queres um poema só para ti

Um poema que tenha mãos

E dedos

E lábios

E olhos

Um poema que possas abraçar

Provar

Sentir

Um poema só de mim

Um poema só por ti

Um prolongamento de nós

Um caminho

Uma alameda

Ou uma vereda

Um cume

Ou um vale

Às vezes um desfiladeiro

Mas que tenha mãos

E dedos

E lábios

E olhos

Só para ti

Só para nós

Cheio de palavras que são

Tudo ou nada

Queres um poema só para ti

Não de meias palavras

Não de meias verdades

Talvez de coisas que ficaram a meio

Mas que não queremos perder

A meio

Estamos a meio de tudo

A meio da vida

A meio das palavras

A meio do nosso fôlego

A meio do nosso beijo

A meio do nosso tempo

A meio caminho de termos

Um poema só para nós

Com princípio e meio

E que se fica por aqui

Que se demora no agora

Que não quer pensar no depois

Agora é o nosso dia

O nosso tempo

Amor

O nosso tempo…

by: Salou

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Carta de amor

Amo-te

Amo-te

Em-Quietude, Janeiro de 2013

Olá!

Nas últimas semanas tenho pensado frequentemente em ti.  Tenho pensado no nosso reencontro… já não falta muito… prefiro pensar assim. E enquanto em ti vou pensando, sinto que esboço um leve sorriso que me adoça o rosto, me incendeia o coração e me ilumina todos os sentidos. Olha, como está a acontecer agora, neste preciso momento…

Vejo-te…rubra, num corpo singelo e delicado. Vejo-te…ora assustada ou confiante, tranquila ou exultante, frágil ou resiliente. Vejo-te, sim!  Nestes meus pensamentos deambulatórios cheguei a pensar que esse  teu rubor poderia ser de vergonha, mas achei que não fazia sentido. Vergonha de quê, afinal?! Timidez, talvez seja isso. Uma timidez que me encanta. Ah, se soubesses como ficas linda no meio do trigal. Singela, mas ao mesmo tempo imponente. De fazer inveja ao próprio trigo, por si só resplandecente de luz, mas também ele sequioso de ti.

Gosto de pensar no trigal, sim. O nosso trigal! De te ver ruborizar com a minha presença e com a forma como eu te acaricio para te deixar incólume. Apenas um leve toque, a mais não me atreveria… na certeza de que a minha vontade seria outra! Abraçar-te, cingir-te, sentir-te, levar-te comigo… perpetuar o momento… Mas não! Tal não seria possível! Não suportarias que eu te fizesse isso. Não sobreviverias, eu sei! Por isso, continuaremos a amar-nos no trigal: eu olho para ti, toco-te e tu respondes,  escarlate, brilhante, rutilante… Teu corpo esguio  a roçar o meu, insinuante, mas simultaneamente transbordante de timidez, a timidez própria dos primeiros encontros e carícias, sem princípio, nem meio e muito menos fim.  Tanto trigal para nos acolher, mas sempre, sempre por pouco tempo.  Há que aproveitar! Não nos podemos perder! O instante é apenas isso e voa, irremediavelmente. Mas afinal é tudo isto que  cria o teu encanto, minha papoila brava.

Por isso, jurei que desta vez vou tentar encontrar-te mais cedo! Ainda antes do trigal chegar, vou andar por aí, buscando-te, cheirando-te, sentindo-te, talvez aninhada por aí, à espera que os dias se tornem adultos e que os campos, em gestação acelerada, comecem a dar à luz. E eu vou lá estar, minha papoila! Vou lá estar para te poder ver nascer e exultar contigo.

Até lá, que o rubor esteja contigo e que tu estejas no meio de nós!

Daquele que te ama,

 O doce vento  

Carta escrita por Sara Loureiro no âmbito da iniciativa levada a cabo pela

Câmara Municipal do Montijo.

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Esse teu sorriso

http://euindoevindo.blogspot.pt

Um sorriso meu e teu

O teu sorriso azul alface tira-me as palavras.

Palavras que queria para te dizer…

dizer… beijar… afagar…

Afagar ao amanhecer,

amanhecer contigo, adormecer contigo,

contigo pernoitar para a alvorada receber.

Receber a alma amada. Tristeza não resignada!

Resignada não, nunca! Olho  o teu sorriso,

sorriso azul alface, fresco e orvalhado,

orvalhado pela emoção  de quem o contempla.

Contempla, sorve, saboreia.

Saboreia comigo o néctar da vida!

Vida que não se quer só.

Só, só se formos só nós dois…

Dois amantes, sol e lua.

Lua cheia, lua nova, lua crescente…

Crescente por entre a gente,

Gente que não sente!

Sente? Não, não sente. É gente que mente!

Mente porque diz que o teu sorriso tem uma cor qualquer…

Qualquer… como se isso fosse natural!

Natural, em ti, é esse teu sorriso azul alface ou azul carmim.

Carmim, em jeito de cetim, velando ou desvelando,

desvelando  caminhos que só nós dois sabemos.

Sabemos sem saber, sentimos sem precisar tocar.

Tocar… tocar-te, era o que eu mais queria!

Queria que sorrisses para mim, de novo…

De novo, olhos nos olhos,  mãos nas mãos,

mãos que afagam esse sorriso que soltas em gargalhadas de azul,

azul alface, azul carmim … azul cetim, azul para mim…

by: Sara Loureiro

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Conto – 7º Epis. (fim)

Os Mensageiros

A Noiva

Não teve descanso enquanto não soube onde ficava a pequena igreja. Rapidamente percebeu que estava entre pessoas que lhe mereciam respeito e confiança. Falou dos anjos, do que vira há dias atrás, do que sentira, do pesadelo que agora vivia, do apoio de que necessitava, do que podia fazer para participar na luta que travavam… Ouviram-na interessados. Acolheram-na. Deram-lhe as boas vindas. Lupe podia vir a ser uma deles. Conversaram, conversaram muito, naquele dia e nos que se seguiram. Ela inteirou-se de muita coisa que não sabia, que até então lhe passara ao lado. Lupe assimilava vorazmente o que via, ouvia e lia. À medida que os dias passavam, Lupe sentia-se mais forte, mais determinada. Os seus dias tinham um novo sentido. Queria abraçar aquela luta. Era a isso que ela se agarrava para continuar a viver.

O Natal aproxima-se a passos largos. Os Anjos Mensageiros estão a terminar os preparativos para a concentração do dia 23 de Dezembro, ao fim da tarde, numa das movimentadas ruas de Juárez. Esta vai ser um pouco diferente das anteriores. Lupe também vai participar e, em conjunto, pedir o fim da violência e o arrependimento dos narcotraficantes, dos criminosos, dos assassinos que espalham a dor e o medo. Lupe destaca-se dos outros elementos do grupo, porque não se apresenta como os demais. No dia, por entre os anjos, vê-se uma mulher que enverga um vestido de noiva de um branco magnólia, salpicado aqui e ali por um pó vermelho que a fustiga. O baton empapado aprisiona-lhe os lábios e o sorriso que teima em não se soltar. No conjunto, destaca-se um cordão de prata que pende com duas voltas sobre os seios e que exibe uma medalha oval da Nossa Senhora de Guadalupe, também em prata. Sem medo, a mulher ergue um cartaz que diz “ A dor da perda daqueles que amamos é irreparável. Fim à violência!”

Enquanto decorre a concentração, a Televisa noticia que foram encontrados e identificados os corpos de três pessoas mortas, desaparecidas há já algumas semanas, e que estavam envolvidas no narcotráfico. Sabe-se que estava em causa a disputa entre dois dos principais cartéis da droga, o Cartel de Sinaloa e o Cartel de Juárez, pelas rotas do tráfico de  Cocaína para os Estados Unidos da América.

Por: Sara Loureiro

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Conto – 6º Epis.

Os Mensageiros

A DÚVIDA

A Dúvida, de Sara Loureiro

“Olá, Lupe!”, cumprimenta. “A polícia federal esteve lá em casa hoje de manhã”, informa Poncho. “Sei que foste falar do Pepe”, continua. Lupe permanece em silêncio. “Olha, não foi boa ideia teres feito isso”, afirma Poncho, sempre com o mesmo tom de voz arrastado, talvez mesmo cansado. “O México está cheio de histórias de desaparecimentos como a nossa, como a de Pepe, por razões nem sempre claras, por razões que nem sempre interessa explicar, por ligações a certos grupos…”, lembra. “É demasiado perigoso para ti, para a tua segurança, para a tua vida”, interrompe-se. “Esta gente é implacável!”, reforça. “Eles vão saber o que tu fizeste”, afirma Poncho sem indício de dúvida. “Esta gente tem sede de vingança!”, continua.

“Que gente, Poncho?”, reage Lupe. “Explica-me o que se passa. Não uses meias palavras!”, exige.

“Ora, não se está mesmo a ver?”, agora é a vez dele perguntar. “Andas de olhos fechados, rapariga?!”, pergunta incrédulo. “Os rumores e as insinuações andam por aí por todo o lado. Andas cega e surda? Parva não me parece que sejas…”, diz com uma certa agressividade. Poncho desatara a língua. Ela não queria acreditar! Estaria Pepe envolvido em… A cabeça relampejava. “Virgem de Guadalupe, Santa Mãe!”, repete Lupe para si. “Não pode ser verdade!”, continua. “Eu já teria percebido, se assim fosse”, não se cansa de pensar. Poncho dá meia volta. Diz qualquer coisa que ela já não percebe. As pernas tremem-lhe. Sobre ela abate-se uma tempestade que a imobiliza. “Como é que nunca me apercebi de nada?”, pergunta-se. Lupe encosta-se a uma parede, em busca de apoio. Algumas das pessoas que passam viram-se para olhá-la, mas ela nem dá por isso. Senta-se no degrau de acesso a uma casa, visivelmente derrotada. Apoia a cabeça nos joelhos. O relógio está infatigável.

Sem saber como, Lupe regressa a casa noite dentro. Deita-se sobre a cama e adormece. Dorme a noite inteira, sem interrupções. Acorda já perto da hora de almoço. Permanece deitada, sem vontade de se levantar. Precisa pensar. Na sua cabeça vai-se equacionando um cenário até então ignorado. Junta peças, estabelece ligações, faz deduções… enfim, tenta encontrar caminhos, fazer qualquer coisa. No meio de tudo isto, vem-lhe à cabeça a imagem dos Anjos Mensageiros. Ouvira dizer, na altura, que eram da igreja  Canto de los Salmos. Era lá que queria ir. Queria falar com aquela gente. Ouvir as suas razões. Conhecer as suas lutas. Talvez pedir ajuda ou ajudar, quem sabe. (continua)

Por: Sara Loureiro

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Conto – 5º Epis.

Os Mensageiros

Nossa Senhora de Guadalupe

“Senhorita, já passei os olhos pelo processo que o meu colega abriu, relativamente ao desaparecimento do seu noivo. Preciso da identificação dele e de alguns outros elementos. Faça o favor de se sentar.”

Lupe tentou arrastar a cadeira, que parecia colada ao chão. Estava literalmente exaurida. Mal ouvia a voz do polícia, que ia falando e perguntando, falando e perguntando, falando e…

“Senhorita, sente-se bem?”, inquiriu o polícia ao constatar que ela não respondia a nada do que ele perguntava.

“Desculpe. Isto já passa. Deve ser por estar nervosa.”

“Compreendo. Vamos então completar os dados relativos ao seu noivo”, prosseguiu o polícia. “Diga-me o nome completo, a idade, a profissão, a residência,  com quem vivia, o nome de alguns dos amigos mais próximos e, se possível, a morada de algum deles ou outro contacto.”

Lupe lá foi respondendo e dando as informações que lhe eram solicitadas. Pepe, 38 anos, vivia num pequeno bairro degradado da periferia de Juárez, com o irmão Poncho, pouco mais velho, na casa que fora dos pais, falecidos há já uns anos. Lupe e Pepe conheceram-se há 4 ou 5 anos atrás. Ele, vaqueiro forte, destemido, pele achocolatada, dera-lhe no olho numa feira, num dos populares rodeos mexicanos, as tradicionais Charrerías, com os ginetes a mostrar as habilidades. Pepe vibrava com a montaria dos touros e a perícia dos montadores. Lupe ria-se, mas não gostava quando alguém saía da brincadeira de braço pendurado. Há dois anos, graças à ajuda de um amigo, Pepe mudara de vida.  Agora trabalhava no transporte de mercadorias. Trabalho mais limpo, mais perto de casa. Que sabia ela dos amigos de Pepe? Pouco. “Não te metas com aquela gente!”, avisava Pepe. “São outro mundo. Não quero que dês confiança”, costumava dizer. Héctor Padilla também andava no transporte de mercadorias e era com ele que Pepe estava mais frequentemente. Trabalhavam ambos na transportadora Super Express Fernández. Era quanto sabia. Bastava-lhe.

“Muito bem, senhorita”, diz o polícia sem desviar os olhos do que  estava a escrever. “Chegou a falar com alguém antes de aqui vir?”, pergunta.

“Sim, falei com Poncho, o irmão de Pepe”, refere Lupe.

“Sim, e então?…”, quer saber o agente.

Lupe fala da conversa que ambos tiveram e do vazio com que regressou a casa, nessa tarde povoada de dúvida e opacidade.

“Muito bem, senhorita.”, repete o agente. “Iremos proceder em conformidade com o previsto para estas situações”, explica. “Procure manter-se calma e reservada. Não adianta fazer nada por iniciativa própria. Já fez o que tinha a fazer. Contactá-la-emos se necessitarmos de mais informações”, diz estendendo a mão, em sinal de fim de conversa.

Lupe agradece e sai. Não consegue pensar grande coisa. Sente-se aliviada. “Fiz bem em ter vindo”, diz para si. “Devia falar com Poncho! Devia dizer-lhe que participei o desaparecimento de Pepe à polícia federal”, pensa. Tem que pensar melhor. Tem que esfriar a cabeça. Afinal Poncho é irmão. Devia preocupar-se mais com a situação… Lupe vai ruminando. Sem dar por isso, dirige-se para casa. É lá que irá permanecer nos dois dias seguintes. Sábado, 12 de Dezembro. Vazio. Domingo, 13 de Dezembro. Vazio. Segunda-feira, 14 de Dezembro. Decide que vai trabalhar. Não dá grandes explicações quando chega. Pouco tem falado sobre o sucedido, mas já todos perceberam que há ali coisa. Não tem cabeça para conversas. Faz tudo maquinalmente. Parece que anda sob anestesia. Decidira não ir ter com Poncho. Logo se vê, pensava ela. Na quarta-feira ao fim do dia, quando sai da pequena joalharia, dá de caras com Poncho, numa rua não muito distante. Ele estava à espera dela. Ela é que não! (continua)

Por: Sara Loureiro

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